O desafio de fixar um budget olímpico

A recente atualização dos custos dos Jogos Olímpicos Rio 2016 para um valor total de R$ 38,67 bilhões gerou uma surpresa aos profissionais de gestão esportiva e imprensa especializada. Não deveria! Afinal, em um evento tão grande e complexo como esse, é natural que os valores financeiros sejam corrigidos à medida em que a sua realização se aproxima.

Geralmente o orçamento de um projeto do tamanho de uma Olimpíada ou Copa do Mundo se estabelece com anos de antecedência e utiliza como premissas para sua composição somente a experiência de edições anteriores e previsões macro sobre possíveis despesas na época de sua realização. Isso tudo condicionado a um momento macroeconômico momentâneo.

Ou seja, números bastante superficiais e altamente voláteis, mas que – de alguma forma – servem para parametrizar o planejamento de médio e longo prazos necessários para a condução do projeto. Afinal, é necessário se ter uma ordem de grandeza e um ponto de partida, sobretudo quando há investimentos públicos envolvidos. O desafio, portanto, é fazer com que o gap entre a suposição e a realidade seja o menor possível. Isso requer previsões cada vez mais assertivas.

Essa assertividade, no mundo corporativo chamado de “cost-certainty” é um fator fundamental para o gestor esportivo, pois o permite identificar as linhas do orçamento em que são esperados ajustes ao longo do ciclo.

É comum que a acuracidade de um projeto do tamanho dos Jogos Olímpicos se inicia com uma porcentagem entre 5 a 15%, em função de incertezas inerentes ao próprio programa e subjetivismo aplicados. Esse fator tende a crescer à medida em que os contratos com as partes envolvidas são fechados e as correções de custos implementadas. Neste período do ciclo, há cerca de 1 ano para os Jogos, entendo que o orçamento deve estar com um média de 50% a 60% certo.

Nesse mesmo princípio, é natural que os custos olímpicos – e de qualquer outro grande espetáculo – revele também uma curva ascendente constante, tornando o valor total mais caro do que a atualização anterior. E certamente novos aumentos virão nos próximos meses (ainda mais diante da situação econômica vigente).

Importante dizer que o “cost-certainty” dificilmente atingirá 100% antes de que o evento ocorra.

Isso porque, justamente por ser um evento, é comum que imprevistos apareçam.

Mas que não haja exageros!

2 comments

  1. O amigo David esta correto quanto a imprevisibilidade de um projeto desta natureza e a relação de custos fugindo à margem de previsão. O que devemos lembrar é que o “evento” em si, by the way de apenas 17 dias, é a pequena fatia desse bolo. A grande “massa orçamentária” fica por conta da estrutura aplicada à cidade e todas modificações e adaptações necessárias para entregar um projeto dentro do padrão de qualidade esperado. Aqui é que esta o “pulo do gato” e onde as variáveis orçamentárias são mais significativas e geram um maior impacto e distorção na estimativa inicial. Quando olhamos a história dos Jogos e os orçamentos gastos, por exemplo, pelos Comitês Organizadores, há uma significativa distorção entre as edições, fazendo o custo oscilar muito de uma cidade para outra. Ha ainda, as megalomaniacas gastanças que, aos moldes dos Jogos de inverno de Sochi, elevaram os custos para outro patamar, muito além do que 2016 gastará. Entendo o ponto da relação previsao vs antecedência, entendo ainda que variáveis de mercado (a crise que vivemos hoje é um bom exemplo) interferem diretamente nessa margem de erro mas, por outro lado, na minha humilde leitura desse cenario existe (ainda), uma carência grande de verdadeiros gestores à frente de projetos desta magnitude. O que normalmente muito se vê, são sucessivas tentativas e erros de buscar as melhores soluções para os muitos problemas que este tipo de projeto apresenta, com pessoas de formações diversas e sem o necessário expertise de gestão, o que a meu ver, impacta, significativamente, os custos finais do evento. Vamos aprendendo…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Amigo Helio, em primeiro lugar fico muito contente em saber que é um leitor do blog. Que honra tê-lo por aqui…aliás, fique à vontade para publicar o que quiser neste espaço, afinal poucos profissionais de MKT Esportivo tem a sua experiência e competência para opinar sobre temas da área.
      Quanto ao seu comentário, muito pertinente. É preciso ter muita racionalidade para se isolar do entorno e focar no trabalho a ser feito. Para isso, gestores de qualidade são fundamentais. Infelizmente, não consegui entrar em mais detalhes no post, pois ficaria muito longo, mas certamente a matriz de responsabilidades dos Jogos Rio 2016 revelam bem como os investimentos serão alocados e seus benefícios. Meu interesse aqui era somente explicar um pouco os por ques dos aumentos consistentes, a fim de defender os gestores do projeto olímpico. Afinal, criticar somente é muito fácil. Um abraço.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s