A gestão ‘padaria’ do futebol mundial

O sucesso do post anterior sobre o “Fim da(s) Copa(s) Sul-Americana(s)” me inspirou a seguir explorando temas para a melhoria das entidades reguladoras do futebol mundial. Desta vez gostaria de refletir sobre um paradoxo comum no dia-a-dia dos gestores dos grandes times mundiais: o “empréstimo de jogadores para as seleções nacionais”. Para isso, aproveito a leitura do livro “A Bola não entra por acaso” (Ed. Lafonte), do competente gestor esportivo Ferran Soriano (CEO do Manchester City e ex-vice-presidente do Barcelona) e exponho abaixo uma passagem dele que revela um pouco sobre como ainda é preciso definir a ordem das relações no esporte mais popular do mundo.

Por meio de uma analogia com o setor de padarias (isso mesmo, padarias!), Soriano exemplifica que há algo de errado na definição de papéis e responsabilidades entre todos os “stakeholders” envolvidos no negócio futebol. Isso porque, diferentemente de qualquer indústria, na da bola o papel do órgão regulador vai além de definir as normas de concorrência e o zelo pelo seu cumprimento. Incrivelmente, tem também como prerrogativa ser um concorrente de seus próprios membros. E nessa briga, atuam em condições muito vantajosas.

Para entender a magnitude do que representa essa situação, Soriano transporta a um hipotético exemplo de um “sindicato de padeiros”. No livro, ele discorre “…imaginemos se eles decidissem, em alguns dias determinados do calendário produzir um pão por conta e obrigasse as melhores padarias a enviar os melhores padeiros e os melhores vendedores para trabalhar com ele, sendo que o salário continuaria a ser pago pelas padarias de origem”.

Sabemos que as seleções são importantes para girar a roda do futebol. Porém é preciso equilíbrio, pois os clubes mais organizados e que investem em equipes vencedoras – sendo pela formação dos craques ou pela capacidade de montar conjuntos – acabam sendo justamente os mais prejudicados. Considerando as arrecadações milionárias das confederações e entidades reguladoras, a saída para esse imbróglio deve-se iniciar com uma discussão sobre o estabelecimento de regras rígidas e um sistema de controle que protejam os clubes sempre que seus ativos (atletas) estiverem sob responsabilidade delas.

Na Europa, esse movimento já começou há alguns anos e vem ganhando força. Primeiro com o G-14 (associação dos maiores clubes europeus) e agora com o ECA (European Clubs Association). Os primeiros resultados começam a surgir e, atualmente, seus membros recebem compensações pelo empréstimo de jogadores para as seleções nacionais.

Enquanto isso, por aqui temos visto justamente o contrário, o que torna o exemplo europeu quase que uma utopia. Com os clubes se isolando cada vez mais um dos outros, preocupados somente com o seu “umbigo”, abre-se espaço para que a desorganização e a exploração que impera ganhe ainda mais força. Quem diria…mas os tempos de Clube dos 13 e G-4 Paulista até que não eram tão ruins…

Infelizmente, se a gestão dos clubes e entidades se mantiver nas mãos desses mesmos amadores, o fim do futebol sul-americano estará mais próximo do que imaginamos.

5 comments

  1. Esse tema precisa ser tratado como prioridade. Afinal, quem investe na formação do jogador? E se o jogador se machuca durante um jogo da seleção, quem paga o salário dele durante o período de recuperação?

    Fora que o calendário é outra aberração, pois os campeonatos não pararem nas chamadas “Datas Fifa” é um crime contra o futebol brasileiro, pois os times perdem seus melhores jogadores durante diversas rodadas, prejudicando os próprios clubes e deixando o campeonato menos atraente, seja para o público, seja para investidores.

    Mas, realmente, essa é uma mudança que só vai acontecer se os amadores deixarem as gestões dos clubes e federações, como você menciona perfeitamente no último parágrafo. E é difícil acreditar que isso vá acontecer tão cedo… Pois mesmo diante destas aberrações, os clubes não se mostram tão interessados em promover mudanças.

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  2. David, ayer tuve la suerte de estar en Manchester, visitando las instalaciones del City. En la recorrida pude tener cinco minutos con el CEO del grupo, Ferran Soriano, quien escribió el libro que tu mencionas. Cuando hablamos de los ingresos de los clubes, el menciono que Latino America atrasa mucho y que todavía dependemos en gran medida de los socios y las ventas de tickets, mientras que en las ligas mas evolucionadas la Televisión es el gran impulsor. La clave para eso es la que se comenta en el libro y tu citas en tu maravilloso blog: la union entre los equipos. Esta union podria ayudar a mejorar los calendarios, ordenar las finanzas, mejorar los patrocinios….. Para dar otro ejemplo, La Liga esta replicando ahora el modelo ingles (de la EPL) y tratan de ir juntos (Madrid y Barcelona inclusive) a discutir contratos y ganar nuevos territorios (ejemplo, China, Pakistan, etc.)

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    1. Que lindo comentario, amigo. Quizás los directivos brasileños tengan la misma gana y interés de vos en buscar el mejor para el fútbol. Tu necesitas ampliar tu alcance y estar mas cerca de Brasil. Un gran abrazo.

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